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Pléyade. Revista de Humanidades y Ciencias Sociales convida artigos para o número 39 (janeiro-junho 2027): "Extremas direitas, autoritarismos, populismos? Nomear o momento fascista da política contemporânea"
Estamos diante de uma transformação profunda do campo político global. Em todas as regiões, forças de extrema direita ganharam terreno eleitoral, institucional e cultural a uma velocidade e intensidade inéditas em décadas. O que observamos é o resultado de um longo processo de reorganização, aprendizagem e reconfiguração de forças reacionárias, cujas raízes se relacionam, entre outras, com fascismos, ditaduras e autoritarismos históricos, bem como com as redes ultracatólicas, evangélicas e neoliberais que se fortaleceram ao longo do século XX. Como assinalou Sonia Corrêa, vivemos um momento fascista do neoliberalismo, no qual a violência aberta deixou de ser o primeiro recurso: a estratégia consiste em chegar ao poder pela via democrática e transformar as regras a partir de dentro (em Escales, 2026).
Esta chamada busca pensar criticamente esses processos, assim como as forças que os animam, e identificar as infraestruturas simbólicas e materiais que os sustentam, tanto em suas dimensões epistêmicas, afetivas e temporais quanto nas jurídicas, midiáticas e econômicas. Da mesma forma, não podemos homogeneizar sob uma única definição forças e movimentos tão heterogêneos. Seguindo o trabalho de Leigh A. Payne, Julia Zulver e Simón Escoffier (2023), convém distinguir ao menos três formas de mobilização —contramovimentos, movimentos incivis e mobilizações neoliberais radicais—, que, embora compartilhem um adversário comum (aqueles que atacam os direitos sociais, econômicos e culturais de populações historicamente marginalizadas) e repertórios de ação semelhantes, não podem ser entendidas como um bloco uniforme.
A mesma cautela se aplica à forma de nomear esses processos e às forças que os impulsionam, as quais não se concentram exclusivamente na extrema direita. Termos como fascismo, populismo, autoritarismo e neoliberalismo —junto com seus respectivos prefixos (neo, tecno, pós, etc.)— são utilizados de maneiras diversas para designar o presente da geopolítica global (Sabsay, 2026). Isso levou autorxs como Alyosxa Tudor e Miriam Ticktin (2021) a propor uma mudança no marco analítico: em vez de se centrar nxs atorxs de extrema direita, propõem centrar-se na noção de “tempos de direita” (right-wing times), entendida como um momento global no qual a ascensão do fascismo é propiciada não apenas pela direita. Antes de atender à posicionalidade de quem intervém, a análise deveria centrar-se nas bordas discursivas do debate.
Essa perspectiva é particularmente útil nas análises das políticas antigênero contemporâneas, onde “tanto em suas versões de esquerda ou liberais como nas de direita mais declaradas, as mobilizações antigênero e antitrans frequentemente se sobrepõem à retórica anti-imigração e antipalestina, assim como a ataques a campos do conhecimento como a teoria crítica da raça e a interseccionalidade” (Tudor, 2026, p. 623). Essa diversidade de usos e marcos analíticos nos desafia a estarmos atentxs a como os territórios e as lutas políticas definem, por sua vez, as bordas do fenômeno que estamos estudando.
Investigações recentes em torno desses processos tomam como eixo central a disputa pela linguagem e a apropriação de repertórios discursivos que caracterizaram historicamente as lutas emancipatórias e de libertação impulsionadas pelos feminismos, pelas esquerdas e pelos movimentos LGBTIQ+ (Vivaldi 2024; Calderaro 2025). Algunxs denominam as forças autoritárias como "antidireitos" e/ou descrevem suas ações como “backlash”, restringindo sua compreensão a um fenômeno meramente reativo. Ambos os descritores são problemáticos (Corrêa et al., 2023). Como argumenta Corrêa, a categoria “antidireitos” resulta insuficiente: essas forças não se limitam a negar direitos, mas disputam a própria definição do que é um direito, quem é seu titular e como devem ser interpretadas as constituições e os instrumentos internacionais, tais como a Declaração Universal dos Direitos Humanos (em Escales, 2026). Em uma linha afim, Payne descreve esses movimentos como vinho velho em garrafas novas: ou seja, forças que priorizam a ordem e a estabilidade —ainda que à custa da violência e da exclusão— em detrimento dos direitos daqueles que se consideram indignxs de proteção (em Gartenlaub-González, 2024). Desse modo, são as pessoas historicamente vulneradas, ou as “vidas que não importam”, quem se vê mais afetada por essas novas formas de governo, entre as quais se destacam as mulheres, as pessoas LGBTIQ+, as pessoas migrantes e racializadas, e as vítimas de genocídios, ocupação ilegal e deslocamentos forçados.
A isso se soma a dimensão transnacional do fenômeno. Investigações recentes, como De España al mundo: La proyección global de la ultraderecha española (Corrêa & Elman, 2025; Barrientos D. & Ojeda, 2025), evidenciam que a Espanha opera como um nó a partir do qual a ultradireita se fabrica ideologicamente e exporta discursos, táticas e financiamento para a América Latina, a Europa e a África, por meio de atores como o Opus Dei, o Vox e sua Fundación Disenso, o Hazte Oír, o CitizenGO e a Political Network for Values. Essas redes combinam religião, dinheiro e manipulação política, articulam campanhas midiáticas coordenadas, litígios estratégicos e narrativas emocionais centradas na “proteção da infância”, na “liberdade dos pais”, na “proteção das mulheres e meninas” ou na soberania nacional frente ao “globalismo” e à ameaça “woke”. A ofensiva antigênero, nesse marco, não ataca apenas as mulheres ou as pessoas LGBTIQ+, mas a própria democracia.
Nesse contexto, a presente chamada busca discutir criticamente as bordas discursivas e materiais que caracterizam as políticas autoritárias contemporâneas. O dossiê intitula-se: Extremas direitas, autoritarismos, populismos? Nomear o momento fascista da política contemporânea.
A seguir, sugerimos algumas linhas de problematização:
- Fascismo, neofascismo, ultradireita, populismo? Debates conceituais, geopolítica e genealogias históricas das direitas radicais contemporâneas.
- Continuidades e rupturas: o que têm em comum e o que distingue esses movimentos em relação aos fascismos históricos e às ditaduras do século XX?
- Tipologias da mobilização reacionária.
- A disputa epistêmica pelos direitos, pela ciência e pelo conhecimento: ataques à produção de conhecimento (ex.: desfinanciamento, epistemicídio, ataque a campos disciplinares) e à infraestrutura de proteção de direitos em nível local e internacional.
- Transnacionalização da ultradireita: ecossistemas de financiamento, plataformas digitais e circulação global de discursos e táticas.
- Femonacionalismo, homonacionalismo e políticas reacionárias: a instrumentalização do gênero, da sexualidade e da raça e a securitização da política.
- Políticas antigênero e antitrans: diagonalismo político e desarticulação de solidariedades interseccionais.
- Natalismo, infâncias e “a família” como núcleos político-morais da política autoritária contemporânea.
- Alianças, rearticulações e fragmentações religiosas: católicxs, evangélicxs e pentecostais frente aos direitos sexuais e reprodutivos.
- Justiça transicional, memória, genocídios e negacionismo.
- Feminismos e movimentos LGBTIQ+ frente à ascensão dos fascismos e dos autoritarismos: políticas de coalizão e estratégias de resistência.
- Plataformização da política, violência digital, desinformação e discursos de ódio.
- Processos constituintes, pânico moral e os paradoxos da defesa dos direitos.
- Constitucionalismo autoritário e disputas pela interpretação dos direitos.
- Como estudar a ultradireita e os autoritarismos contemporâneos? Desafios metodológicos, éticos e de cuidado.
Idiomas aceitos: espanhol, inglês e português
Início da chamada: 24 de julho de 2026
Encerramento da chamada: 05 de novembro de 2026
Data de publicação: 30 de junho de 2027
As normas editoriais para autores/as encontram-se na página web da Pléyade e a recepção das propostas de artigos será feita por meio da plataforma no seguinte link: https://www.revistapleyade.cl/index.php/OJS/about/submissions
Editorxs convidadxs
Lieta Vivaldi, Universidad Alberto Hurtado (UAH). Professora Associada, Faculdade de Direito, diretora do Programa Direito e Cuidados da mesma Faculdade. Doutora em Sociologia por Goldsmiths, MSc em Sociologia pela London School of Economics and Political Science (LSE) e advogada pela Universidad de Chile. Pesquisadora em temas sobre direitos sexuais e reprodutivos, teoria crítica, ética, feminismos, cuidados e movimentos autoritários de extrema direita. É integrante do IIPSS, ABOFEM e GEDIS. lvivaldi@uahurtado.cl
Jaime Barrientos, Universidad Alberto Hurtado (UAH). Professor Titular, Faculdade de Psicologia, diretor do Programa de investigação em gênero e diversidade (GEDIS). Pesquisador em temas de preconceito sexual e seus efeitos na qualidade de vida de pessoas LGBTQ+ e, atualmente, nas ações e movimentos antigênero e seus efeitos na vida das pessoas LGBTQ+. jbarrientos@uahurtado.cl
Tomás Ojeda, Université de Lausanne (UNIL). Pesquisador de pós-doutorado no Instituto de Ciências Sociais e no Centro de Estudos de Gênero da UNIL. Doutor em Estudos de Gênero (LSE) e Mestre em Psicologia Clínica, linha de especialização em psicanálise, pela Universidad de Chile. Investiga as políticas de construção de evidência e as disputas epistêmicas nos debates sobre cuidados de afirmação de gênero e terapias de conversão LGBTIQ+, assim como a circulação transnacional da “ideologia antigênero” e do ativismo clínico antitrans. tomas.ojeda@unil.ch
Referências
Barrientos D., J., & Ojeda, T. (2025). De Pinochet a Kast: Conexiones españolas en la ultraderecha chilena. Em S. Corrêa & J. Elman (Eds.), De España al mundo: La proyección global de la ultraderecha española contra los derechos sexuales y reproductivos. Los casos de Argentina, Guatemala, El Salvador, Chile y Kenia (pp. 60–78). L'Associació de Drets Sexuals i Reproductius. https://lassociacio.org/wp-content/uploads/De-Espana-al-mundo.pdf
Calderaro, C. (2025). Beyond Instrumentalization: Far-Right Women's Appropriation of Feminism in France. Politics & Gender, 21(4), 931–959. https://doi.org/10.1017/S1743923X25000030
Corrêa, S., & Elman, J. (Eds.). (2025). De España al mundo: La proyección global de la ultraderecha española contra los derechos sexuales y reproductivos. Los casos de Argentina, Guatemala, El Salvador, Chile y Kenia. L'Associació de Drets Sexuals i Reproductius. https://lassociacio.org/wp-content/uploads/De-Espana-al-mundo.pdf
Corrêa, S., Paternotte, D., & House, C. (2023). Dr Frankenstein's hydra: Contours, meanings and effects of anti-gender politics. Em P. Aggleton, R. Cover, C. H. Logie, C. E. Newman, & R. Parker (Eds.), Routledge Handbook of Sexuality, Gender, Health and Rights (2ª ed.). Routledge.
Escales, V. (2026, 9 de junho). Sonia Corrêa: "No son antiderechos: disputan la definición misma de los derechos" (Entrevista). LatFem. https://latfem.org/sonia-correa-no-son-antiderechos-disputan-la-definicion-misma-de-los-derechos/
Gartenlaub-González, A. (2024). Entrevista a Leigh A. Payne: "Los discursos de los grupos de derechas radicales son como el vino viejo en botellas nuevas, priorizan el orden y la estabilidad, aunque impliquen violencia y exclusión". Disjuntiva. Crítica de les Ciències Socials, 5(2), 129–135. https://doi.org/10.14198/DISJUNTIVA2024.5.2.9
Payne, L.A., Zulver, J., & Escoffier, S. (Eds.). (2023). The Right Against Rights in Latin America. Oxford. Oxford University Press.
Sabsay, L. (2026). The political aesthetics of cruelty: Contemporary authoritarian politics and the struggle between sovereignty and relationality. Contemporary Political Theory, 25(1), 33. https://doi.org/10.1057/s41296-026-00812-0
Tudor, A., & Ticktin, M. (2021). Sexuality and borders in right wing times: A conversation. Ethnic and Racial Studies, 44(9), 1648–1667. https://doi.org/10.1080/01419870.2021.1909743
Tudor, A. (2026). Right-Wing Times: Fascism, Left/Right Convergences, and the Relationship of "Gender-Critical" to Anti-Gender. Signs: Journal of Women in Culture and Society, 51(3), 621–647. https://doi.org/10.1086/738994
Vivaldi, L. (2024). Anti-Gender Campaigns and Abortion: Feminist Strategies Against Reactionary Biopolitics in Chile. Em A. Holvikivi, B. Holzberg, & T. Ojeda (Eds.), Transnational Anti-Gender Politics: Feminist Solidarity in Times of Global Attacks (pp. 161–180). Palgrave.